Leonardo da Vinci, renascentista com mais títulos que a franquia Star Wars

9, fevereiro de 2021

Uma das preocupações da minha mãe era sobre minha irmã e eu nos tornarmos autônomos. Para tal, uma das etapas foi nos ensinar a cozinhar. Nesse contexto, uma das aulas de culinária era voltada para as massas, mais especificamente, para fazer ravióli. Depois de fazermos a mistura dos ingredientes, chegou a hora de moldar cada um deles. Naquele momento tive muita dificuldade: a forma ficava torta, o recheio escapava, enfim, um desastre.

Minha mãe, personificação da graça e da paciência, com toda ternura e precisão, disse-me o seguinte: “Meu filho, você gosta tanto de brincar com massinha, faz várias esculturas com ela… O que acha de aplicar aqui o que você aplica enquanto brinca de massinha?”.

Incrível como ela estava certa (e, caso esteja se perguntando, sim, consegui fazer raviólis a partir daquele dia e até hoje, volta e meia, preparo-os nos almoços de domingo). Porém, o mais incrível ainda do que esse causo que lhe conto é como muitas pessoas não se dão conta do quanto o conhecimento possui vizinhos, ou seja, é multidisciplinar.

Em um mundo complexo, dinâmico e diverso em que vivemos, não existe mais espaço para divisões, limites e fronteiras entre os campos do saber. As segmentações da ciência e a formação de especialistas estão dando lugar às múltiplas disciplinas e sua integração. Assim, cai por terra o senso comum de que “para quê preciso estudar Y, se sou de X?”.

Na verdade, devemos pensar “se sou de X, como posso aplicar os conhecimentos de Y no meu contexto?”. Ou ainda, “se eu sou graduando de Fonoaudiologia, quais as contribuições da Acústica – ramo da física que estuda as propriedades do som – podem ser utilizadas na área que estudo?”. Ou mais ainda, “se trabalho com ultrassonografia e medicina fetal, como posso aproveitar os conhecimentos do design, a fim de aprimorar o diagnóstico e o acompanhamento de bebês que nem nasceram?”. Este último, inclusive, já foi solucionado. Basta pesquisar aí o projeto “Feto 3D”, iniciativa brasileira feita no Rio de Janeiro pelo ginecologista e obstetra Heron Werner e o professor de design Jorge Lopes.

Não falo para que nos tornemos um Leonardo da Vinci, renascentista com mais títulos que a franquia do Star Wars (cientista, engenheiro, inventor, matemático, pintor etc.). Ressalto apenas que é relevante investirmos no pensamento pautado na multidisciplinaridade, sobretudo nos estudos a nível de graduação e pós-graduação, uma vez que não se trata apenas de nos tornamos profissionais de ponta, mas sim de nos darmos conta de, ao menos, compreender melhor a intrincada e enigmática realidade que nos cerca.

Artigo de Leonardo Vilhagra