A Cultura do Cancelamento e o Mal-Estar nas Redes Sociais

9, março de 2021

O termo ainda é estranho para muitas pessoas, mas nas redes sociais já ganha força. Mesmo que nem todos saibam que estão envolvidos em situações como essa ao boicotar um indivíduo, marca ou empresa no Instagram, Twitter ou Facebook por exemplo.

Na forma como é praticada ultimamente “A Cultura do Cancelamento” empobrece o debate pois impõe a exclusão. Funcionando como uma ferramenta de autocensura, de forma que muitos deixam de emitir sua opinião sobre temas importantes, e muitas vezes do seu domínio, com o receio de serem “cancelados”. Afinal quem nunca desistiu daquele post polêmico?

Geralmente o movimento se inicia após um erro ou conduta reprovável, violando as normas até então aceitas. Contudo, logo se perde o controle e o que começou como algo para promover a denúncia e a discussão de assuntos relevantes, pode acabar com o descarte do debate saudável. Resultando num verdadeiro linchamento virtual, exigindo tomar o erro como se fosse o todo.

Isso costuma acontecer quando se abandona a discussão das ideias para discutir apenas a pessoa envolvida, mas por quê? Humilhar o outro apontando nele as suas falhas sempre foi a maneira mais fácil de negar nossa própria fragilidade.

Ao desqualificar o outro, mostro como tenho receio da opinião alheia, já que esta não deveria mais me definir. Assim, poucos preferem ouvir, entender e formar uma opinião antes de atacar; na verdade pessoas assim estão sempre na defesa, de si mesmos.

O que para alguns pode ser apenas uma ação trivial nas redes sociais, pode se tornar um grande estressor para o indivíduo que se encontra do outro lado daquela conta. Sobretudo se existe um fator predisponente.

O estresse ocasiona diversos sentimentos, como ansiedade, raiva, tristeza e desesperança, além da perda de sono e reações fisiológicas. A pessoa pode ser acometida de uma vivência de impotência, desamparo, pessimismo, fracasso, baixa autoestima, insegurança, sentimento de culpa e autoacusação.

A sociedade se revela, assim, cada vez mais insegura, voltando-se para soluções superficiais, como o uso excessivo das redes, na busca por diminuir a distância entre o real e o imaginário. Distância essa que pode ser chamada simplesmente de SOFRIMENTO.

A hiperexposição nas redes sociais só aumenta essa distância, pois na maioria das vezes o foco é o mundo idealizado das selfies e fotos perfeitas. Fica garantido então uma outra epidemia: a do Mal-Estar nas redes sociais.

No clássico texto de Freud, ao comentar sobre a finalidade e intenção da vida dos homens, a resposta não é difícil de acertar: “eles buscam a felicidade quer na ausência de dor e desprazer, por outro lado, a vivência de fortes prazeres”.

Assim, como diz Bauman, aceitamos “amizades” sem intimidade, consumimos relações como se fossem objetos, começando e terminando os relacionamentos “do nada”, e como num deletar o outro desaparece ao menor sinal de desagrado.

Evitamos assim o sofrimento, mas também o crescimento, esperando repetir tudo uma outra vez enquanto o tempo passa – até quando? Aceitar nossas imperfeições nunca será sinal de fraqueza e sim fonte de grande sabedoria e o único caminho para se tornar uma pessoa melhor.

Uma pessoa capaz quem sabe de escutar verdadeiramente o outro, para então ser capaz de perdoar. É o perdão e não o ressentimento que pode dar conta de tornar o espaço público das redes sociais menos polarizado, abrindo caminho para o diálogo, tão em falta ultimamente.

 

 

Valber Dias Pinto

Médico Psiquiatra e Mestre em Fisiologia

Professor da Especialização em Psiquiatria